Treinamento de Golfinhos
Robert B. Dilts
A seguinte história/parábola mostra alguns possíveis parâmetros de um novo paradigma de liderança e gerenciamento, conforme delineado neste livro.
O
antropologista Gregory Bateson levou muitos anos estudando os padrões de comunicação entre golfinhos e botos. Ele relata que, a fim de complementar estudos científicos, o centro de pesquisa ao qual ele pertencia, muitas vezes colocava esses animais em shows ao vivo – freqüentemente até três vezes ao dia. Os pesquisadores decidiram demonstrar ao público o processo pelo qual treinavam golfinhos para realizar um truque.
Um golfinho era levado de um tanque de permanência para um tanque de apresentação, perante o público espectador. O treinador esperava até que o golfinho tivesse algum comportamento diferente (i.e., diferente para os humanos) – digamos, levantar a cabeça fora da água de uma certa maneira. O treinador então soprava um apito e dava ao golfinho um peixe. O treinador então esperaria até que o golfinho eventualmente repetisse o comportamento, apita de novo e lhe dá um peixe. O golfinho aprende logo o que fazer para obter o peixe, e levanta a cabeça várias vezes, dando uma demonstração do sucesso de sua capacidade de aprender.
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Algumas horas depois, no entanto, o golfinho é levado de volta ao tanque de exibição, para um segundo show. Naturalmente, ele começou levantando a cabeça fora da água, como fez no primeiro show, e esperou pelo apito e pelo peixe. O treinador não queria que ele fizesse o mesmo truque anterior, mas demonstrasse ao público que ele aprendera um novo. Depois de gastar quase dois terços do período do show repetindo a velha proeza muitas vezes, o golfinho, frustrado, bate sua cauda contra o treinador, para
demonstrar seu desgosto. O treinador, imediatamente, sopra o apito e atira-lhe um peixe. O golfinho, entre confuso e surpreso, cuidadosamente bate novamente a cauda e, mais uma vez, ganha o apito e o peixe. Logo ele começa a bater sua cauda alegremente, demonstrando com sucesso sua capacidade de aprender, e é levado de volta para o tanque de permanência.
Na terceira sessão, após ser conduzido ao tanque de exibição, o golfinho começa duvidosamente a bater a cauda, como havia aprendido na sessão anterior. Mas como o treinador quer que ele aprenda algo novo, não lhe dá nenhuma recompensa. Mais uma vez, durante dois terços da sessão de treinamento, o golfinho repete continuamente o ato de levantar a cabeça fora da água e bater com a cauda, demonstrando crescente frustração até que, finalmente, exasperado, ele faz algo diferente, tal como girar em torno de si mesmo. O treinador, imediatamente, toca o apito e dá-lhe um peixe. Depois de algum tempo, ele aprendeu com sucesso a girar em torno de si próprio e é conduzido de volta ao seu tanque de permanência.
Durante catorze shows, o golfinho repete esse padrão – os primeiros dois terços do show gasto em repetições fúteis do comportamento que fora reforçado no show anterior, até que, aparentemente por "acidente", ele tem um comportamento novo e é capaz de completar a demonstração de treinamento com sucesso.
Em cada show, o golfinho fica cada vez mais perturbado e frustrado por ser "errado", e o treinador acha necessário mudar as regras do contexto de treinamento: periodicamente dá-lhe um "peixe sem merecimento", a fim de preservar sua relação com o golfinho. Se o golfinho ficar muito frustrado com o treinador, ele se recusa a cooperar, o que causa um atraso severo à pesquisa e aos shows.
Finalmente, entre a décima - quarta e a décima - quinta sessão, o golfinho parece ficar quase selvagem de excitação, como se tivesse descoberto uma mina de ouro. E quando ele é levado para o tanque de exibição para o décimo - quinto show, apresenta um desempenho elaborado, incluindo muitos comportamentos totalmente originais. Um deles chegou a exibir oito comportamentos que nunca tinham sido observados nessa espécie.
Elementos Básicos envolvidos no Treinamento de Golfinhos.
Os elementos importantes da história são:
1. O golfinho teve que aprender uma série de comportamentos em oposição a um comportamento em particular.
2. As peculiaridades do comportamento foram determinadas pelo golfinho, não pelo treinador. No entanto, a tarefa principal do treinador era administrar o contexto de tal forma a provocar novo comportamento do golfinho.
3. O problema de aprendizagem tinha um contexto específico (o tanque de exibição).
4. O apito não era um estímulo específico para provocar uma reação específica, mas, antes, uma mensagem ao golfinho sobre algo que ele já havia feito.
5. O peixe dado ao golfinho era menos um reforço de um comportamento em particular realizado pelo golfinho, do que uma mensagem sobre seu relacionamento com o treinador. O peixe é uma meta mensagem.
6. Se o treinador não estivesse sensível à relação e não tomasse atitudes para preservá-la, a experiência poderia Ter sido um fracasso.
7. De modo diferente de Pavlov, Skinner ou um programador de computador, ambos, o golfinho e o treinador foram observados pelo público. De fato, a capacidade de agradar o público é que define a finalidade de todo o contexto do treinamento.
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De acordo com Bateson, os estímulos usados nessas experiências de aprendizado não são tanto disparadores para os reflexos, mas marcadores de contexto para dar ao animal um indício de como interpretar o contexto – uma espécie de meta mensagem. A combinação apito-peixe forma um marcador de contexto que diz: "Repita o comportamento que você teve agora." O tanque de exibição é um marcador de contexto que abrange o contexto do apito–peixe e diz:
"Faça algo diferente daquilo que você fez nos shows anteriores". O relacionamento com o treinador, conforme aponta Bateson, é o contexto do contexto do contexto. Isto é, o relacionamento com o treinador é um contexto que abrange os dois outros contextos. O relacionamento com o treinador abrange o tanque de permanência, o tanque de exibição, o apito e o peixe. E o contexto definido pela responsabilidade implícita do treinador diante do público influencia seu relacionamento com o golfinho.
Do livro: Visionary Leadership Skills - Robert B. Dilts - Meta Publications - USA
Trad. Hélia Cadore
Revisão: Maria Helena Lorentz
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